Mãe vende filha por R$ 10
27/04/2009
Uma mulher vendeu a própria filha, de 9 meses, por R$ 10 para comprar droga. O fato ocorreu neste domingo (26), em Vila Velha, no Espírito Santo. De acordo com a polícia, a mãe de 22 anos bateu na porta da casa de uma bancária e ofereceu a menina. A bancária contou que a mulher parecia transtornada e dizia que precisava do dinheiro para comprar drogas. Percebendo o risco que a criança corria, a bancária deu o dinheiro para ficar com a criança. Em seguida, acionou a polícia e denunciou a mãe, que foi presa. O bebê foi levado ao hospital, onde fez exames, e encaminhado depois para um abrigo municipal. A mãe da criança chegou na delegacia sob efeito de drogas e não conseguiu prestar depoimento. O pai do bebê disse que ficou surpreso com o que aconteceu e vai pedir a guarda da menina. O destino do bebê será decidido pela Justiça.
A notícia acima é o retrato do mundo moderno, da sociedade livre, do direito de pensar, do direito de ter direito. Os valores de ontem, hoje são motivos de piadas e de comentários retrógrados. Neste mundo de valores capitais e imorais, alguns comportamentos são explicáveis, entendidos e perdoados.
Lembro-me de quando tinha 10 anos e na casa da minha vó, no interior do Maranhão, éramos chamados a rezar todos os dias e a aprender estes valores ultrapassados. Hoje, na conduta que desempenho, e muitas vezes com erros grosseiros, encontro o refugio necessário para não incorrer em determinados percalços. Naquela época respeitar pai e mãe e amar a Deus era o pilar central da sociedade.
Mas isso mudou e nós estamos no século 21. o século da revolução das máquinas, das idéias e do homem. O século que revirou-se como produto da grande retomada da humanidade no campo do saber e do pensar. O século que é originado em eras escuras e tenebrosas e que hoje se mostra aberto ao diálogo, ao conhecimento e ao debate. Na minha ingênua forma de pensar eu pergunto: e o que fazer com a menina pobre (ou rica) que se perdeu do pai e da mãe e engravidou aos 22 anos e se prostitui e se droga e vende a filha como objeto desvalorizado em troca de umas pedras de uma droga qualquer?
Talvez neste tempo moderno e com explicação para tudo surja um pedagogo, um psicólogo ou um desses especialistas em escrever artigos narrando desgraças e explicando-as querendo dizer que tudo isso tem uma origem: certamente tem. A origem é a ausência de família, de amor, de fé, de aprendizado. Como sempre diz minha mãe: o que falta é berço.
É triste se imaginar um mundo aonde robôs lavam louças, carros equipados com toda sorte de tecnologias nos conduzem a lugares diversos, como shoppings centers que explodem como pipocas, e a internet é a grande companheira do homem. Ao final de cada clique nas páginas de relacionamentos algumas sugestões aparecem: dormir solitário, fumar um cigarro, andar pelas ruas à procura de “diversão” ou quem sabe acender um baseado e esquecer o mundo cão em que se vive.
Quantos mais teremos que ter nestas condições para que os valores sejam resgatados em casa, nas escolas, nas igrejas ou simplesmente na converse leve e descontraída com o vizinho, como ainda ocorre em lugares onde o tal avanço tecnológico e social ainda não se fez presente?
É falta de Deus, é falta de amor, é falta de vida...
Outro dia eu debatia com uma amiga jornalista os rumos da felicidade. Ela me escreveu um e-mail querendo uma fonte, alguem que se dispusesse a falar sobre tão delicado tema. Se buscássemos a referencia em um psicólogo certamente teríamos um estudo aprofundado sobre a mente humana e a explicação viria em palavras rápidas e precisas. A frase mais comum seria: “são traumas da infância”. Se o responsável pela resposta fosse um capitalista do tipo selvagem, a resposta viria em forma de presente, embalada num lindo papel com fitas vermelhas ou róseas.
A verdade que o termo FELICIDADE nos remete a tanta coisa. Mas o que será tão enigmático sentimento? A resposta pode estar do lado da gente. Um cigarro aceso numa tarde qualquer, um filme antigo, uma brincadeira com crianças, uma noite de sexo ou uma simples sentada no meio fio, em plena madrugada deixando os pensamentos fluírem.
As vezes me pego pensando em como seria a minha vida se não fosse esta que vivo. Tenho uma mulher e dois filhos, uma com ela e outro de um casamento frustrado. Temos uma casa no condomínio, um carro popular e trabalhamos duro para pagar as contas. Quando sobra algum a gente come pizza, aluga um filme ou viaja para o litoral. E eu me pergunto: o que eu quero mais?
Mas aí vem a velha indagação eterna: o que eu seria se não fosse o que sou agora?
Vem a velha vontade de ir embora. De mudar os rumos do que planejei e de querer outra vida. Sei lá, sair da cidade e ir para o campo. Deixar de ser servidor público e virar dono de uma pousada na praia ou simplesmente vender côco numa rua qualquer de uma cidadezinha do interior.
Mas e aí. Estaria feliz?
A minha amiga jornalista então começou a tergiversar sobre os vários pontos da felicidade e chegou a uma conclusão surpreendente: somos todos infelizes. O que aprendemos foi sempre fugir dos medos e monstros e sempre estar encenando uma peça sorridente para todos. Creio que é isso.
Mas então o que fazer? Viver a infelicidade, sempre achando que o seu vizinho rir mais do que você? Talvez sim, Talvez não. Seja como for, o ideal é fazer em todos os momentos o que for possível para torná-los agradáveis. Mesmo quando tudo pareça dizer o contrário. Buscar a mudança eternamente é não perceber que no presente tem muito a ser vivido. Querer outra coisa que não se vê, que não se sabe o que é ou que simplesmente parecer ser a melhor é o mesmo que querer a vida em outra dimensão. Isso é apenas conjectura.
O choro e o pranto do feliz é o mesmo choro e pranto do infeliz. A vida nos mostra todos os dias que podemos buscar essa felicidade. Pode ser no mando do capital ou no gesto simples de quem se contenta com o pouco que tem. Pode ser o beijo da princesa ou sorriso singelo da feia. Seja como for, mesmo não tendo a definição do que seja tão falado sentimento. O bom é ser feliz.
A minha amiga então resumiu o debate. Se o teu vizinho parece rir mais do que você, então observe-o no cotidiano. Ele rir no teatro aberto, mas aí, nos bastidores, eu sei que ele também chora, também geme, também é infeliz.
E vaticinou: acho que vou fazer voto de castidade e virar freira, servir a uma causa, ficar isolada, meditando e rezando.
Há muito tempo a profissão de DJ existe. Antigamente classificados de técnicos de som, depois de sonoplastas até formarem a categoria de Disc Jockeys, esses profissionais agora seguem rumo ao reconhecimento da área para terem os seus direitos finalmente respeitados.
Diante dessa situação, o discotecário e locutor Antônio Carlos (mais conhecido como A.C.) reuniu seus amigos e resolveu criar o Sindecs, Sindicato dos DJs e Profissionais de Cabine de Som, em São Paulo.
Confira na íntegra a entrevista com AC (que se tornou o presidente do Sindecs), que conta desde o início do sindicato até as conquistas obtidas por essa luta que acontece desde 2003.
Antônio Carlos: Foi em uma reunião de DJs que aconteceu na gravadora Building Records. Entre as pessoas presentes, estávamos conversando eu, o Rodolfo Sabino e o Celsinho Double C. Entre outros assuntos, a grande reclamação deles, que é a de todos os profissionais do Brasil, é a existência de pessoas que não são DJs, que não tem absolutamente nada a ver com a profissão e entram na área por intermédio de amigos promoters e donos de casas noturnas. A partir daí surgiu a idéia de criarmos uma entidade de classe. Não era, na época, a idéia de sindicato.
Quanto tempo demorou para que o projeto fosse efetivado?
A.C.: Nós começamos já na primeira semana a correr atrás de tudo. Foi uma batalha violenta, porque a idéia era que eu participasse disso. Como eu tenho o DRT para locução de rádio, eu citei num primeiro momento que seria interessante que eles se unissem e que teriam alguém que pudessem ajudá-los. E fui atrás dessas pessoas, até porque eram amigos meus envolvidos na história. Como o DJ tem uma carreira relativamente curta, aqueles que conseguem uma longevidade maior são exatamente os que se tornam produtores e conseguem projeção na mídia, começamos a luta em prol dos profissionais que não conseguem o seu espaço diante do grande público. O Sindecs surgiu oficialmente no dia 04 de agosto de 2003.
Quais são os principais objetivos do Sindecs?
A.C.: O primeiro é que a profissão seja reconhecida como trabalho pelos governantes, porque a maioria das pessoas pensa que ser DJ é só diversão. Como eu trabalhei muito tempo em cabine de som, eu sei que não é só isso. É muito mais profundo, até porque na minha época, já havia uma conscientização de que um bom DJ levaria público para o clube. Levando público para a casa, o dono ficaria muito mais feliz, porque ele ganharia muito mais. Se você troca dentro de uma casa noturna peças como o barman, o garçom, o segurança, o grande público não acaba notando, mas se você troca o DJ, tem reclamação. Buscamos os direitos legais como os de todo o empregado comum: que o DJ tenha contrato de trabalho ou registro em carteira, férias e estabilidade, que é uma coisa que não existe no meio.
Hoje em dia contrata-se alguém, e houve alguns casos recentes de contratarem DJs de nome por um valor X, forma-se o público da casa, esse DJ é demitido (normalmente o proprietário alega que não tem condições de cumprir com a proposta salarial) e coloca qualquer "pára-quedista" no lugar. Mas a médio e longo prazo, a casa dele fecha, porque ele vai colocar uma pessoa sem a menor estrutura para realizar aquele trabalho. O nosso objetivo é exatamente dar essa estabilidade ao profissional, até porque eu tive companheiros de cabine de som que viraram motoboys.
Como estão as negociações com o Ministério do Trabalho para a regulamentação da profissão?
A.C.: As negociações estão andando muito bem. Hoje existe uma consciência por parte dos políticos que eles têm que ter uma penetração maior com os jovens. E o canal de comunicação dos políticos com os jovens são os DJs. Então eles têm obviamente trabalhado em prol da nossa categoria. Por isso que até relativamente rápido saiu aqui o número do protocolo do nosso processo em Brasília. Que já está em andamento com o apoio do deputado Roberto Freire e do deputado Arnaldo Jardim, que são as pessoas que abraçaram a nossa causa. São pessoas importantes que viram a relevância do DJ perante a sociedade. O trabalho do DJ é arte. Até muitos artistas que acabam caindo no esquecimento, voltam ao sucesso nas mãos dos DJs. Este reconhecimento ao DJ é o que precisa ser resgatado e o Sindecs luta por tudo isso, para que esses profissionais ganhem seus direitos.
Quais são as parcerias já realizadas?
A.C.: Nossas parcerias são: Mega Models, o equipamento que o Sindecs tem usado é da Gamini; Schema; Equipo; Secretaria da Cultura; Chilli Beans; Fieldzz; Groove Art, DJ Bunnys e há algumas que não podemos divulgar ainda.
Hoje, o Sindecs abrange a capital paulista e algumas regiões do Estado. Existem projetos para que seu trabalho seja ampliado para outros lugares do país?
A.C.: O Sindecs é um sindicato estadual, então dentro do estado de São Paulo, é jurisdição do Sindecs, o que acaba sendo uma pena para os outros. Nós recebemos contato de todo o Brasil e nós não podemos brigar pelas pessoas.
Nós não poderíamos abrir um sindicato nessas regiões, até porque nós não somos de lá. São as pessoas que conhecem os problemas deles, apesar de os problemas serem os mesmos em qualquer lugar, com residência é que se poderia fazer isso. Nós teríamos uma saída que seria um sindicato nacional, porém isso é muito difícil, porque você não tem como dar atenção ao Brasil todo porque é muito grande. O que seria interessante é que alguns DJs responsáveis fundassem os sindicatos em suas regiões para que nós pudéssemos criar uma federação e partir para uma confederação.
Quais são os benefícios para a profissão que o Sindecs já conseguiu efetuar?
A.C.: Conseguimos um valor diferenciado para os planos de saúde, porque DJ não consegue e não se preocupa com isso, ele não pensa que ele trabalha com decibéis altíssimos no ouvido o tempo todo e com o passar dos anos aquilo vai ser prejudicial; plano odontológico, também com valor diferenciado; faculdade; agora nós estamos querendo brigar para atrairmos a atenção de algumas dessas escolas de inglês, que é importante para o DJ; que o profissional tenha valor diferenciado e prazo para a compra de equipamentos. Existem outros benefícios que estamos dando andamento.
Só quero que a profissão do DJ seja reconhecida para que ele seja um profissional como qualquer outro.
Como os DJs fazem para se associar?
A.C.: Eles precisam enviar os seus dados completos, CPF, RG, nome, foto para a confecção da carteirinha, só que o mais importante de tudo é a comprovação de que eles são DJs. A nossa intenção é criarmos uma entidade séria e respeitada em todo o Brasil. Para aprovar que o DJ é realmente um profissional, ele apresenta flyers de eventos realizados, ou passando por uma banca examinadora, presidida pelo Iraí Campos. O Sindecs vem andando com a garra e a perseverança de algumas pessoas ligadas e temos muitas pessoas que simpatizam com a nossa causa e que não são do meio. O próprio Luiz Schiavon, tecladista do RPM, é uma pessoa que tem dado uma força para nós. Tem também a Mega Model, agência que é nossa parceira, que conhecemos fazendo uma ação do Tic Tac Mega Models. Foi aí que a modelo Caroline Bittencourt entrou como embaixadora da categoria. Mais infos, acesse o site: www.sindecs.org.br
O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar. Porque, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar, sensual e lindo (das mineiras) ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ouvi-la faz mal à saúde. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: só isso? Assino achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma. Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
Mas, se o sotaque desarma, as expressões são um capítulo à parte. Não vou exagerar, dizendo que a gente não se entende… Mas que é algo delicioso descobrir, aos poucos, as expressões daqui, ah isso é…
Os mineiros têm um ódio mortal das palavras completas. Preferem, sabe-se lá por que, abandoná-las no meio do caminho (não dizem: pode parar, dizem: "pó parar". Não dizem: onde eu estou?, dizem: "ôndôtô?"). Parece que as palavras, para os mineiros, são como aqueles chatos que pedem carona. Quando você percebe a roubada, prefere deixá-los no caminho.
Os não-mineiros, ignorantes nas coisas de Minas, supõem, precipitada e levianamente, que os mineiros vivem — lingüisticamente falando — apenas de uais, trens e sôs. Digo-lhes que não.
Mineiro não fala que o sujeito é competente em tal ou qual atividade. Fala que ele é bom de serviço. Pouco importa que seja um juiz, um jogador de futebol ou um ator de filme pornô. Se der no couro — metaforicamente falando, claro — ele é bom de serviço. Faz sentido…
Mineiras não usam o famosíssimo tudo bem. Sempre que duas mineiras se encontram, uma delas há de perguntar pra outra: "cê tá boa?" Para mim, isso é pleonasmo. Perguntar para uma mineira se ela tá boa, é como perguntar a um peixe se ele sabe nadar. Desnecessário.
Há outras. Vamos supor que você esteja tendo um caso com uma mulher casada. Um amigo seu, se for mineiro, vai chegar e dizer: — Mexe com isso não, sô (leia-se: sai dessa, é fria, etc).
O verbo "mexer", para os mineiros, tem os mais amplos significados. Quer dizer, por exemplo, trabalhar. Se lhe perguntarem com o que você mexe, não fique ofendido. Querem saber o seu ofício.
Os mineiros também não gostam do verbo conseguir. Aqui ninguém consegue nada. Você não dá conta. Sôcê (se você) acha que não vai chegar a tempo, você liga e diz:
— Aqui, não vou dar conta de chegar na hora, não, sô.
Esse "aqui" é outro que só tem aqui. É antecedente obrigatório, sob pena de punição pública, de qualquer frase. É mais usada, no entanto, quando você quer falar e não estão lhe dando muita atenção: é uma forma de dizer, olá, me escutem, por favor. É a última instância antes de jogar um pão de queijo na cabeça do interlocutor.
Mineiras não dizem "apaixonado por". Dizem, sabe-se lá por que, "apaixonado com". Soa engraçado aos ouvidos forasteiros. Ouve-se a toda hora: "Ah, eu apaixonei com ele…". Ou: "sou doida com ele" (ele, no caso, pode ser você, um carro, um cachorro). Elas vivem apaixonadas com alguma coisa.
Que os mineiros não acabam as palavras, todo mundo sabe. É um tal de bonitim, fechadim, e por aí vai. Já me acostumei a ouvir: "E aí, vão?". Traduzo: "E aí, vamos?". Não caia na besteira de esperar um "vamos" completo de uma mineira. Não ouvirá nunca.
Na verdade, o mineiro é o baiano lingüístico. A preguiça chegou aqui e armou rede. O mineiro não pronuncia uma palavra completa nem com uma arma apontada para a cabeça.
Eu preciso avisar à língua portuguesa que gosto muito dela, mas prefiro, com todo respeito, a mineira. Nada pessoal. Aqui certas regras não entram. São barradas pelas montanhas. Por exemplo: em Minas, se você quiser falar que precisa ir a um lugar, vai dizer:
— Eu preciso de ir.
Onde os mineiros arrumaram esse "de", aí no meio, é uma boa pergunta. Só não me perguntem. Mas que ele existe, existe. Asseguro que sim, com escritura lavrada em cartório. Deixa eu repetir, porque é importante. Aqui em Minas ninguém precisa ir a lugar nenhum. Entendam… Você não precisa ir, você "precisa de ir". Você não precisa viajar, você "precisa de viajar". Se você chamar sua filha para acompanhá-la ao supermercado, ela reclamará:
— Ah, mãe, eu preciso de ir?
No supermercado, o mineiro não faz muitas compras, ele compra um tanto de coisa. O supermercado não estará lotado, ele terá um tanto de gente. Se a fila do caixa não anda, é porque está agarrando lá na frente. Entendeu? Deus, tenho que explicar tudo. Não vou ficar procurando sinônimo, que diabo. E não digo mais nada, leitor, você está agarrando meu texto. Agarrar é agarrar, ora!
Se, saindo do supermercado, a mineirinha vir um mendigo e ficar com pena, suspirará:
— Ai, gente, que dó.Tadinho...
É provável que a essa altura o leitor já esteja apaixonado pelas mineiras. Eu aviso que vá se apaixonar na China, que lá está sobrando gente. E não vem caçar confusão pro meu lado.
Porque, devo dizer, mineiro não arruma briga, mineiro "caça confusão". Se você quiser dizer que tal sujeito é arruaceiro, é melhor falar, para se fazer entendido, que ele "vive caçando confusão".
Para uma mineira falar do meu desempenho sexual, ou dizer que algo é muitíssimo bom (acho que dá na mesma), ela, se for jovem, vai gritar: "Ô, é sem noção". Entendeu, leitora? É sem noção! Você não tem, leitora, idéia do tanto de bom que é. Só não esqueça, por favor, o "Ô" no começo, porque sem ele não dá para dar noção do tanto que algo é sem noção, entendeu? Ou então usar o tão singelo "Nú!". Pra todos isso não passaria de alguém devidamente despido, mas não, para as mineiras, é uma expressão que sugere algo que "Nossa! Ótimo".
Ouço a leitora chiar:
— Capaz…
Vocês já ouviram esse "capaz"? É lindo. Quer dizer o quê? Sei lá, quer dizer "tá fácil que eu faça isso", com algumas toneladas de ironia. Gente, ando um péssimo tradutor. Se você propõe a sua namorada um sexo a três (com as amigas dela), provavelmente ouvirá um "capaz…" como resposta. Se, em vingança contra a recusa, você ameaçar casar com a Gisele Bundchen, ela dirá: "ô dó dôcê". Entendeu agora?
Não? Deixa para lá. É parecido com o "nem…". Já ouviu o "nem…"? Completo ele fica:
- Ah, nem…
O que significa? Significa, amigo leitor, que a mineira que o pronunciou não fará o que você propôs de jeito nenhum. Mas de jeito nenhum. Você diz: "Meu amor, cê anima de comer um tropeiro no Mineirão?". Resposta: "nem…" Ainda não entendeu? Uai, nem é nem. Leitor, você é meio burrinho ou é impressão?
A propósito, um mineiro não pergunta: "você não vai?". A pergunta, mineiramente falando, seria: "cê não anima de ir"? Tão simples. O resto do Brasil complica tudo. É, ué, cês dão umas volta pra falar os trem…
Certa vez pedi um exemplo e a interlocutora pensou alto:
— Você quer que eu "dou" um exemplo…
Eu sei, eu sei, a gramática não tolera esses abusos mineiros de conjugação. Mas que são uma gracinha, ah isso lá são.
Ei, leitor, pára de babar. Que coisa feia. Olha o papel todo molhado. Chega, não conto mais nada. Está bem, está bem, mas se comporte.
Falando em "ei…" (esse particularmente penternce a mim ^^). As mineiras falam assim, usando, curiosamente, o "ei" no lugar do "oi". Você liga, e elas atendem lindamente: "eiiii!!!", com muitos pontos de exclamação, a depender da saudade…
Tem tantos outros… O plural, então, é um problema. Um lindo problema, mas um problema. Sou, não nego, suspeito. Minha inclinação é para perdoar, com louvor, os deslizes vocabulares das mineiras.
Aliás, deslizes nada. Só porque aqui a língua é outra, não quer dizer que a oficial esteja com a razão. Se você, em conversa, falar:
— Ah, fui lá comprar umas coisas…
— Que' s coisa? — ela retrucará.
Acreditam? O plural dá um pulo. Sai das coisas e vai para o que.
Ouvi de uma menina culta um "pelas metade", no lugar de "pela metade". E se você acusar injustamente uma mineira, ela, chorosa, confidenciará:
— Ele pôs a culpa "ni mim".
A conjugação dos verbos tem lá seus mistérios, em Minas… Ontem, uma senhora docemente me consolou: "preocupa não, bobo!". E meus ouvidos, já acostumados às ingênuas conjugações mineiras, nem se espantam. Talvez se espantassem se ouvissem um: "não se preocupe", ou algo assim. A fórmula mineira é sintética. e diz tudo.
Até o tchau. em Minas. é personalizado. Ninguém diz tchau pura e simplesmente. Aqui se diz: "tchau pro cê", "tchau pro cês". É útil deixar claro o destinatário do tchau. O tchau, minha filha, é prôcê, não é pra outra entendeu?
Deve haver, por certo, outras expressões… A minha memória (que não ajuda muito) trouxe essas por enquanto. Estou, claro, aberto a sugestões. Como é uma pesquisa empírica, umas voluntárias ajudariam… Exigência: ser mineira. Bem, eu me explico: é que, características à parte, as conformações físicas influem no timbre e som da voz, e eu não posso, em honrados assuntos mineiros, correr o risco de ser inexato, entendem?
Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que não é jornalista, não é publicitário, nunca publicou crônicas ou contos, não é, enfim, literariamente falando, muita coisa, segundo suas palavras. Mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, a crônica apresenta foi extraída do livro "As coisas simpáticas da vida", Landy Editora, São Paulo (SP) - 2005, pág. 82.
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A comunidade do Paranoá talvez seja uma das mais antigas manifestações sociais do DF. Ao lado da Cidade Livre, hoje o Núcleo Bandeirante, a cidade do Paranoá nasceu de uma vila acampamento de operários que construíam a barragem. Em meados de 1958, um grupo de trabalhadores chegou por estas paragens e por ali foi montando suas barracas. De acampamento a vila foi um pulo, de vila simples a “quase favela” foi um salto menor ainda. Surgia, com amor e ternura, a Vila Paranoá.
Foram 30 anos de lutas, batalhas e conquistas. Neste período eram precários os serviços de água, esta fornecida por um pioneiro que tinha uma mina e canalizou alguns pontos, a luz era deficiente. Não dispúnhamos de linha telefônica e o contato com a nova capital era feito por orelhões, e isto já na década de 80, e lembro-me de existirem apenas dois, localizados no ponto final de ônibus e na entrada da feira. As linhas de ônibus eram poucas e problemáticas. Os serviços de segurança e saúde eram ínfimos e a nossa educação passava por duas escolas: a primeira de madeirite e a segunda de lata. Entre becos e ruelas um povo garimpava seus sonhos dourados no Planalto Central.
Mas o Paranoá se destacava como cidade por um detalhe: era, sem sombra de dúvida, o fio de civilização mais organizado do DF. Por aqui se formou uma associação de moradores e não faltavam os grupos culturais e os líderes comunitários. Com bandeiras de direita, de centro e de esquerda, estes líderes começavam a exigir dos governantes as melhorias de que tanto precisávamos.
Nenhuma destas melhorias poderia ser mais significativa do que a fixação da nossa cidade aqui mesmo onde ficava a Vila. Entretanto, por razões estruturais, fomos fixados como cidade satélite em uma área próxima da vila. E a vila romântica de outrora deu lugar a um lindo parque ecológico, chamado de Parque Vivencial. Creio ter recebido este nome em função da vivencia de seus criadores, que sem saber o geraram. Plantas ornamentais e frutíferas não faltam. Histórias e vivencias humanas, menos ainda.
A nossa história é muito mais longa do que estas simples palavras. São fatos e fotos, são sonhos e frustrações, são alegrias e tristezas. São riquezas de talhes, são sutilezas e proporções. Os líderes de antes cresceram e se multiplicaram. As conquistas de antes deram lugar a outras batalhas. E assim, neste ciclo de inovações, e privações, estamos formando mais um fronte. E este é o ápice de quem nunca deixou de sonhar. E se sonhar é o nosso destino, que façamos dele a nossa meta usando das ferramentas de que dispomos. Antes eram faixas e cartazes, hoje a poderosa rede.
Sejam bem vindos à luta. Nasce aqui um espaço livre e democrático para que todos possam dizer o que pensam e o que desejam. Um lugar mantido pela ética, pela transparência e pela única e exclusiva vontade de vencer.

